domingo, 27 de fevereiro de 2011

''Com Kassab no PSB, serei estranha no ninho''

Ex-prefeita ressalta 'proximidade' com o PT e admite deixar partido se a cúpula decidir acolher líderes do DEM

26 de fevereiro de 2011

Daniel Bramatti - O Estado de S.Paulo
A ex-prefeita de São Paulo e deputada federal Luiza Erundina deixou claro ontem que sairá do PSB se o partido acolher políticos como o prefeito Gilberto Kassab e o vice-governador Guilherme Afif Domingos, ambos de saída do DEM.
Erundina destacou sua proximidade com o PT, partido do qual saiu em 1997, mas disse esperar que a Justiça Eleitoral impeça a concretização de uma eventual manobra de Kassab e da cúpula do PSB - nessa hipótese, estaria assegurada sua permanência na legenda.
Como a senhora vê a possibilidade de Kassab e Afif criarem outro partido para depois migrar para o PSB?
Se essa migração se confirmar, será absolutamente incompatível com a minha opção política pelo PSB. Serei uma estranha no ninho. A convivência, tanto para essas pessoas quanto para mim, será praticamente inviável. Com certeza não terei lugar nesse partido.

A senhora deixará o PSB?
Isso poderá acontecer, mas temos de ver em que termos. Há uma questão legal a ser esclarecida. Se eles vão criar outro partido já com o propósito de se incorporar ao PSB, como é que a Justiça Eleitoral vai interpretar esse mecanismo oportunista? É claramente um artifício para fugir do enquadramento na infidelidade partidária.

A legislação não ameaçaria seu próprio mandato em caso de troca de partido?
Se isso (fusão do PSB com partido criado apenas com esse objetivo) pode ser feito, quem estará sendo infiel? Digamos que um de nós, que não concorde com essa via do partido trampolim, queira sair do PSB. Quem sair poderá alegar que foi o partido quem mudou de rumo. Há possibilidade de você não ser punido por infidelidade se a infidelidade se deu pelo partido no qual você está.

Nos últimos anos, a senhora se reaproximou de líderes do PT. Seu retorno ao partido é uma possibilidade?
Essa proximidade minha com os petistas existe. No fundo, minha prática política e meus compromissos não se alteraram um milímetro em relação ao que fazia como petista. Essa base histórica, essa militância, essa identidade nunca deixou de existir. Tenho muitos eleitores que são filiados ao PT. Nunca tive distanciamento com o partido. Alguns dirigentes é que se distanciaram. Mas há companheiros com quem mantenho relação de confiança, de afinidade na luta política. Durante a campanha de Dilma, na qual me engajei, havia manifestações públicas e coletivas para que eu voltasse ao PT. Mas trocar de partido é muito complexo, é traumático. Quero primeiro acreditar que isso (a migração de líderes do DEM) não se confirmará. É um absurdo um partido que estava crescendo como referência política para a sociedade de repente perder tudo em nome de um projeto de poder a médio e longo prazo. Essa não pode ser a lógica predominante em um partido que se pretende de esquerda, socialista e democrático.

Isolada, ex-prefeita Luiza Erundina ameaça deixar o PSB

A possível chegada do prefeito Gilberto Kassab, que prepara a saída do DEM, ameaça provocar uma baixa histórica no PSB. Desiludida, a deputada Luiza Erundina (SP) promete deixar o partido se o flerte for consumado.
Ela anunciou a decisão à Folha na noite de anteontem. Em tom de desabafo, acusou a direção da sigla de desprezar os ideais socialistas ao negociar a filiação de Kassab, que planeja levar aliados como o vice-governador Guilherme Afif (DEM).

BERNARDO MELLO FRANCO
27/02/2011
Alessandro Shinoda/Folhapress
Desiludida, a deputada Luiza Erundina (SP) promete deixar o PSB se for confirmado que Kassab irá para o partido
Desiludida, a deputada Luiza Erundina (SP) promete deixar o PSB se for confirmado que Kassab irá para o partido

"Eles representam forças claramente conservadoras, de direita. Se forem aceitos, não terei mais espaço no partido. Não terei razão para estar nele", afirmou Erundina.
Aos 76 anos, a primeira mulher a governar a capital paulista (1989-92) não poupou adjetivos para atacar a aproximação: "absurda", "inconsequente", "incoerente". Prometeu lutar "até o fim", mas admitiu ter poucas chances de brecá-la.
"Já estou isolada no partido há muito tempo. Se isso acontecer mesmo, não vou mais respirar politicamente no PSB", sentenciou.
"Não digo que serei um incômodo para eles porque não estarei mais lá. Se for o preço a pagar, não tem importância. Não vou transigir com o que acredito."
Filiada ao PSB desde 1997, Erundina disse que a negociação ameaça rebaixar os socialistas ao papel de linha auxiliar do ex-presidenciável José Serra (PSDB) na disputa com outro tucano, o governador Geraldo Alckmin.
"O PSB não pode ser barriga de aluguel. Kassab é o plano de Serra para derrotar Alckmin. É um pedaço do PSDB tentando derrubar outro pedaço do PSDB."
Para ela, os personagens em jogo são "absolutamente incompatíveis" com a história do PSB e não podem militar num partido que "tem o S de socialista no nome".
"Se admitir isso, o partido vai passar da esquerda para a direita. O DEM sustentou a ditadura militar, que nos impôs tortura, exílio e desaparecimentos. É uma mistura que a química não admite."
A ex-prefeita também criticou a aposta em candidatos sem identificação com o partido, como o recém-eleito deputado Romário (PSB-RJ).
"Está havendo uma frouxidão além do razoável. Isso não é crescimento, é inchaço. Inchaço é doença, e essa doença vai matar a identidade do partido."
Reeleita para o quarto mandato com 214 mil votos, Erundina mantém a força nas urnas, mas sofre derrotas em série na legenda.
Em 2008, foi impedida de se candidatar a vice na chapa de Marta Suplicy (PT) a prefeita. No ano passado, não impediu o PSB de bancar a candidatura ao governo paulista do empresário Paulo Skaf, presidente da Fiesp.
No último revés, foi obrigada a engolir a adesão do presidente regional do partido, Márcio França, ao secretariado de Alckmin. "Ele decide tudo sozinho. Não faz consultas, não comunica nada a ninguém. Age como se fosse o dono do PSB."
Apesar do pessimismo, Erundina ainda sonha em convencer o presidente nacional do partido, o governador pernambucano Eduardo Campos, a interromper a negociação com Kassab.
Ela evitou antecipar os próximos passos em caso de nova derrota. "Se for para disputar pelo poder pelo poder, poderia estar no PT, que é um partido maior e que ajudei a fundar", disse.
"Essas coisas não me motivam a permanecer na política. Não preciso disso, não tenho nada a ver com isso."

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Ideias que foram parar nos lixões paulistanos

01/09/10
Costábile Nicoletta - Diretor Adjunto do Brasil Econômico

Luiza Erundina elegeu-se prefeita de São Paulo em 1988. Vinte e dois anos atrás, propôs que se discutisse algum tipo de escalonamento dos horários comerciais como forma de distribuir durante o dia o fluxo de entrada e saída dos trabalhadores nas empresas da cidade.
Era uma tentativa de atenuar os momentos de pico no trânsito. Também pretendeu instituir a tarifa zero para o transporte coletivo rodoviário na capital paulista.
O custo seria bancado por uma modificação no cálculo do Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU) de imóveis de maior porte, que teriam seu valor venal reajustado para cima. Ambos os projetos foram rechaçados por grande parte da população paulistana.
São Paulo perdeu a chance de pelo menos testar opções para que o trânsito não fosse tão caótico e os usuários de transporte coletivo tivessem algum tipo de benefício, incentivando as pessoas a utilizar mais esse meio, em vez de viajarem sozinhas em seu automóvel.
Erundina também desenvolvera um projeto de coleta seletiva de lixo no bairro de Pinheiros. Os recursos decorrentes da economia advinda desse processo (como a venda de materiais recicláveis e de um lixo orgânico mais aproveitável) eram empregados em melhorias no próprio bairro.
A ideia era ampliar a experiência para outras localidades, porém a iniciativa foi sepultada por seu sucessor, Paulo Maluf, em 1993, sob o argumento de que o projeto era inviável economicamente.
Em 2002, Marta Suplicy, então prefeita de São Paulo, instituiu uma taxa extra para a coleta de lixo na cidade, com o objetivo de angariar fundos para encontrar alternativas à destinação dos resíduos sólidos, pois os aterros para onde eram levados estavam saturados.
José Serra, o prefeito seguinte, aprovou em 2005 uma lei que extinguiu a taxa de lixo. Se o projeto iniciado na administração Erundina tivesse tido continuidade, a abordagem do problema não precisaria ser tão reciclada pelos alcaides que a sucederam e a população teria mais noção da importância de reaproveitar seu lixo.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Ex-prefeita da cidade de São Paulo visita o Jornal do Cambuci

     A candidata que disputaseu quarto mandato, a Deputada Federal pelo PSB-SP, Luiza Erundina de Sousa visitou o Jornal do Cambuci & Aclimação na última sexta feira (23). Durante bate papo, Erundina enfatizou que seu trabalho é instrumento a serviço da sociedade e do interesse público.

     Erundina já administrou a cidade de São Paulo de 1989 e 1992. Entre as suas realizações, estão o governo voltado à periferia e ao social; a administração descentralizada, o orçamento participativo; a reforma tributária do município; a construção de 36.000 casas populares; a canalização de córregos, o incentivo aos mutirões e a urbanização de favelas; a implantação da coleta seletiva do lixo; a criação do sistema de sacolões, melhorando o abastecimento urbano; a construção de 80 novas creches; a municipalização dos transportes coletivos; a adoção do governo itinerante; a recuperação da Biblioteca Mário de Andrade e a criação das Casas de Cultura.

     Hoje com 75 anos e agora com três mandatos como deputada, aprovou Leis e encaminhou tantos outros Projetos de Lei, Propostas de Emenda Parlamentar e diversas iniciativas voltadas para educação, para o fortalecimento da Legislação Participativa, para uma mais efetiva e mais eficiente participação da mulher na política, para as áreas de saúde, habitação e segurança, e diversos outros aspectos da vida dos brasileiros - com o particular dos paulistas e dos paulistanos, a quem afirma ter a honra e o privilégio de representar na Câmara dos Deputados.

     "Há temas que se destacam entre as prioridades do nosso mandato parlamentar, como a Reforma Política. Criamos a Frente Parlamentar pela Reforma Política, que vem desenvolvendo intensa agenda de debates referentes ao assunto".

     Em sua opinião o que deixou marcado em seu mandato como prefeita foi a ousadia como a primeira mulher a governar a cidade de São Paulo.

     A ex-prefeita é reconhecida por sua importante atuação no cenário político brasileiro, e respeitada por políticos de todos os partidos e cidadãos de todas as tendências. Nordestina, migrante e socialista,
Erundina é figura entre as mulheres que revolucionaram o século 20. Conhece como poucas pessoas a força do preconceito e da discriminação.

     Desde muito jovem sentiu-se motivada a mobilizar-se, sua trajetória é de luta. Saiu so sertão da Paraíba, onde nasceu, de família pobre e trabalhadora, e foi para São Paulo, em 1971, no auge da ditadura militar. Trabalhou como professora, assistente social da prefeitura, atuou nas favelas da periferia da grande metrópole, onde reencontrou, em situação de pobreza e marginalidade, seu povo nordestino.

      Em 1979, eleita presidente da Associação Profissional de Assistentes Sociais de São Paulo, recebe convite do metalúrgico Lula para fundar o Partido dos Trabalhadores. Eleita vereadora pelo PT, 1982, em 1986 candidata-se a deputada estadual. Dois anos depois, vencendo todos os prognósticos, elege-se prefeita de São Paulo, uma das quatro maiores cidades do mundo, com mais de 1.500.000 votos.

      Sua prática política, segundo informou tem sido marcada por sua formação de educadora social.

      Nos últimos três mandatos a frente como deputada federal, Erundina conseguiu sete projetos de leis, quatro deles importantes e relevantes na questão social. Um deles garante a vinculação da gestante ao pré-natal, isso é uma resposta a mortalidade materna. Outro foi a alteração do estatuto da criança e do adolescente. "Essa campanha contra a prostituição de crianças e adolescentes foi uma alteração, um projeto meu, em seu artigo 244, que estabeleceu a edificação desse crime, estabelecendo punição de 4 a 10 anos para o criminoso. E tembém pune donos de postos, bares e comércios que de alguma forma forem conivente ao crime. Isso eleva multa alta e fechamento do estabelecimento", diz.
      O Fundo Nacional Penitenciário, que é administrado pelo Ministério da Justiça é outro projeto da parlamentar, que destina recursos para assistência aos familiares dos presos.
      Ela agregou a esse fundo parte dos recursos para serem somados na construção de casas e abrigos para mulheres vítimas de violência doméstica. Hoje é um programa do país todo, que possibilita as prefeituras construírem casas e abrigos, bem como mantê-las em prol dessas mulheres.
     Muitas outras leis e projetos foram e serão aprovados dentro de seu mandato, mas sua prioridade para a próxima gestão, sendo eleita, estará voltado para a Reforma Política.
     Quando elegeu-se Prefeita de São Paulo Erundina recebeu o jornalista Roberto Casseb em sua residência e concedeu uma entrevista exclusiva. Fomos o primeiro veículo de comunicação a entrevistar a então recém eleita prefeita de São Paulo.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Erundina, 21 anos

     Faz 21 anos que Luiza Erundina foi eleita prefeita de São Paulo. Sua vitória, em 15 de novembro de 1988, muito inusitada, foi marco histórico: "Mulher, nordestina, petista", ela resume a própria biografia tentando refletir sobre o que significa na época.
     A disputa se dava ainda - pela última vez - em turno único. Erundina obteve quase 30% dos votos, ultrapassando na reta final o favorito Paulo Maluf, que se elegeria em 92. Jânio Quadros não compareceu à transmissão do próprio cargo.
     Maria Luiza Fontenelle já havia sido eleita em Fortaleza em 1985 (e em 88 romperia com o PT). Mas São Paulo era a maior cidade da América, o berço de ouro do malufismo. Erundina recorda que assumiu a prefeitura tendo de enfrentar "muita desconfiança e má vontade por parte de empresários", convertidas em "boicote" em vários casos. Mas foi alvo também da hostilidade do próprio PT, que lhe cobrava pontos do programa. "Havia muitas demandas represadas e era difícil convencer o partido de que a gestão municipal não iria dar conta delas".
     Ainda assim, a ex-prefeita hoje avalia que seu legado foi a redefinição das prioridades orçamentárias, deixando de lado grandes obras viárias para enraizar a ação da prefeitura no social e na periferia: ônibus-bibliotecas, creches, mutirões - "o erundinês" é a lingua da organização comunitária e do esquentamento dos movimentos sociais.
     Aquela, diz Erundina, "era uma época dura, de inflação e desemprego, mas também politizada, de muita mobilização, diferente de hoje".
     Erundina não poupa Lula pelo atual engessamento da política: "Ele não tem contribuído para fortalecer os movimentos sociais. Pelo contrário, tirou o seu protagonismo de cooptou o movimento sindical".
     No país de Lula, diante de um governo que tem o PT a seus pés e os empresários gargalhando, soa quase como gafe espanar o pó de uma gestão sempre escanteada pelo partido. Inclusive em termos de conduta moral, o que vingou no PT não foi o bom exemplo de Erundina. 


Fonte. Folha de S. Paulo 17/11/2011
Por. Fernando de Barros e Silva

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Erundina critica censura da Rádio Bandeirantes



A entrevista que a ex-prefeita de São Paulo e deputada federal Luiza Erundina (PSB) daria ao programa Manhã Bandeirantes, da Rádio Bandeirantes, na quarta-feira, dia 9, às 10h30, foi cancelada -- possivelmente pela direção da emissora – a uma hora de entrar no ar.

No programa, a parlamentar trataria do projeto de lei nº 55//2011, que propõe a obrigatoriedade de consulta à população sobre aumento dos salários de deputados, senadores e presidente da República.

Embora o tema desperte o interesse da sociedade, sobretudo porque no apagar das luzes, em dezembro, o Congresso aprovou reajuste de 62% nos subsídios dos parlamentares e da presidenta Dilma Rousseff, Erundina acabou impedida de explicar sua proposta. Motivo? A deputada entrou com pedido de requerimento de audiência na Comissão de Ciência e Tecnologia, Comunicação e Informática (CCTCI) para debater a renovação da concessão das emissoras de rádio e TV, Globo, Record e Bandeirantes.

Segundo Erundina, a legislação prevê que a cada 15 anos seja revista a concessão, uma vez que os responsáveis pela emissora não são donos, mas permissionários. Grosso modo, estão sujeitos à devolução da rede caso haja irregularidade na prestação de serviço ou ao término da concessão, se o governo decidir. As emissoras, diz a deputada, estão há 30 anos sob processo de renovação automática e a Rede Bandeirantes, que se diz democrática, impôs um veto a ela.

“Entrei com o requerimento de audiência para ouvir os concessionários sobre a renovação. Entendemos que a cada renovação tenha que haver debate para ver se o serviço continua atendendo o interesse público”, disse.

Segundo ela, esse debate para avaliar a qualidade da programação, do serviço público prestado, a adequação à legislação, ocorre em todo mundo. Entretanto, disse, “a direção da Bandeirantes ficou irritada e ao final o requerimento nem foi aprovado pela Comissão”, explicou. Indignada, ela se manifestou na tribuna da Câmara.

Erundina, que não terá espaço na Bandeirantes, segundo informações obtidas por sua assessoria junto ao Grupo, disse que poderia recorrer à Constituição para reaver seu direito, mas não vai:  “Tenho coisas importantes para cuidar”, concluiu. O Grupo Bandeirantes foi procurado, sexta-feira, 11, para comentar a suposta censura, mas avisou, por meio de sua assessoria de imprensa, que não vai se manifestar sobre o tema.

Fonte: Jornal Metrô News 14 de fevereiro de 2011
Por Ricardo Filho

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

O dia em que a Band vetou Luiza Erundina

Veto ao interesse público e ao direito à informação


A produção do programa Manhã Bandeirantes, da Rádio Bandeirantes de São Paulo, agendou uma entrevista por telefone com a deputada Luiza Erundina para esta quarta-feira, 9 de fevereiro, às 10h30. A pauta seria o Projeto de Lei n° 55/2011, apresentado pela deputada Erundina na Câmara, que institui referendo popular obrigatório para a fixação dos vencimentos do Presidente da República e dos parlamentares.

O projeto é de notório interesse público visto que o reajuste de 62% nos subsídios dos parlamentares aprovado no final de 2010 foi implacavelmente criticado por grande parte da população brasileira e pela imprensa.

Inclusive, no dia anterior à entrevista com a deputada Luiza Erundina, o apresentador do programa Manhã Bandeirantes, José Luiz Datena, questionou a dificuldade para o reajuste do salário mínimo dos trabalhadores e trabalhadoras brasileiros enquanto que, o reajuste de 62% para os parlamentares foi votado e aprovado em caráter de urgência pela Casa, com voto da imensa maioria dos congressistas.

Nesse contexto estávamos, a deputada Luiza Erundina e sua assessoria, aguardando a ligação para a participar do programa quando, 1h antes da possível participação, recebemos uma outra ligação cancelando a entrevista. Tratava-se de um veto da direção do grupo. Questionados sobre o por que da censura, do veto à fala de uma parlamentar brasileira em um veículo da imprensa livre, sobre projeto de interesse público, fomos surpreendidos com uma justificativa de cunho absolutamente pessoal: “Este veto é uma resposta aos ataques que a deputada vem fazendo à Rede Bandeirantes”.

Ora, a deputada Luiza Erundina apresentou requerimento junto à Comissão de Ciência e Tecnologia, Comunicação e Informática (CCTCI) da Câmara, para a realização de audiências públicas com o objetivo de debater a renovação de concessões públicas de rádio e TV. E ela não fez isso como um “ataque” pessoal à Rede Bandeirantes. Ela apresentou requerimentos solicitando audiências públicas para debater o processo de renovação de emissoras ligadas à Rede Globo, à Rede Record e à Rede Bandeirantes, não como um ataque a essas emissoras, mas com o objetivo de motivar mais democracia e transparência no processo de renovação das concessões públicas de rádios e TVs. (REQ-205/2009 CCTCI e REQ-220/2009)

O pleito da deputada Luiza Erundina foi absolutamente isento de pessoalidade. Apenas suscita o uso de instrumentos democráticos do Congresso – as audiências públicas – para a avaliação de um serviço de interesse público, antes da sua renovação por mais 15 anos. Já o posicionamento da rede Bandeirantes revela exatamente o contrário: numa retaliação ao exercício parlamentar da deputada, priva a sociedade de ter mais informações sobre um Projeto de Lei de absoluto interesse público, já que os subsídios dos representantes do povo são oriundos do orçamento público, que pertence ao povo.

Episódios como este violam o direito à informação, e revelam que a liberdade de expressão no Brasil, definitivamente, não é uma realidade. Isenção, impessoalidade, interesse público, direito à informação ainda são expressões estranhas à maioria dos meios de comunicação. Lamentável para as comunicações. Lamentável para o Brasil.

Originalmente publicado no Blog do Miro - http://altamiroborges.blogspot.com/2011/02/band-censura-deputada-luiza-erundina.html#links
Fonte: Assessoria Deputada Luiza Erundina